Às vezes falo que a "
menina bate" ou "
está on" ou "
está em baixa", etc... e vou tentar
me explicar hoje.

Antes de tudo: não sou médica, psicóloga, psiquiatra, etc e não estou sob tratamento. Assim a tentação é falar que "menina" é igual a
disforia de gênero é grande,
mas não fui diagnosticada ainda.
(Inclusive existem casos de gente que foi
diagnosticada errado e isso é um problemão pro resto da vida (
o site linkado tem mais de dez anos, alguns dos casos citados já eram antigos naquela época. Talvez os diagnósticos tenham melhorado bastante de lá pra cá, talvez não, mas avisos nunca são demais) (
tem de se por na conta também as pressões anti-transição de alguns grupos religiosos e movimentos transfóbicos, inclusive entre as feministas))
Assim, vou falar "
disforia" pelo texto (como já ando falando desde o começo nesse blog...)por que ACHO que é disforia, mas não tenho como afirmar isso oficialmente. Só que eu preciso de uma palavra pra me explicar, e ela é boa o suficiente pra isso, assim como "
(a) menina".
Outra coisa que queria por na mesa antes de falar: nem sempre acho a palavra exata para definir o que sinto, o que vivo. Às vezes o que sinto é sutil e a palavra que tenho é muito grosseira, dez vezes mais
forte. Aí uso essa palavra que tem a mão e sinto que estou cometendo um exagero, só que a alternativa à ela é
nada, e por causa disso, tudo o que sinto fica parecendo nada, mas não é. Dá até para dizer que esse jogo de palavras, que acabou adiando e adiando a queda da minha ficha...

essa é pra humanidade, mas vou pegar emprestada pra mim só por um momento
Tem dias que a questão de gênero não pesa pra mim: estou bem acomodada na vida - estou há décadas nela - e pensar que de alguma forma já estou em transição, que estou caminhando para corrigir esse errinho da natureza é algo reconfortante. Ou, como eu estava antes, eu tocava da minha vida e fingia que não tinha problemas com o sexo com que nasci, inclusive, realmente tenho coisas mais legais para me entreter do que meu corpo e o papel social que vivo: minhas histórias, para dar um exemplo que seja parte de mim.
Mas tem dias que a menina bate. Antes lidava com "vai passar", lia relatos reais ou ficcionais de mudança de sexo, poucas vezes ousava com roupas, ou começava a escrever no feminino com algumas pessoas, ou mudava meu gênero pra o mais neutro possível nos meus cadastros na internet (
acho isso recomendável, com ou sem disforia...).
O louco da palavra "
disforia" é que ela significa "
fora do lugar (foro)". Eu estava em um lugar e me imaginava do
outro lado da fronteira, queria poder visitar sem culpa o lado de lá, cruzar a fonteira, quem sabe ficar por lá? Mas mudança dá trabalho, né? E tem seus riscos, eu to bem acomodada no lado de cá, mas....
E quando a menina tava dando porrada forte, a vontade era sair correndo, entrar de sopetão nos chats e conversas com um "me tratem como mulher, tá?", de querer
a cirurgia pra ontem e o tratamento hormonal pra amanhã, nem que eu tivesse de comprar a maior bomba de hormônio feminino que encontrasse na farmácia.

Claro que nunca fiz isso e nem pretendo. Automedicar dá ruim, ainda mais com uma química poderosa dessas, mas o estranhamento com o corpo, que estou ostentando os
símbolos errados existe.
Mas esse tipo de crise passa, assim como ainda existe, mesmo agora com eu me expressando, aprendendo e me entendendo melhor - de repente estou praticando maquiagem e cabelos e roupas (símbolos!), pra semanas depois sossegar o facho, o incômodo vira aquele ruidozinho que não se percebe. Imagino q essa questao seja bem mais brava pra outras pessoas, especialmente as
trans novinhas/os, que praticamente nascem com a certeza que tá errado na vida delas/es.
Mas se vivo em negação a cada crise, como percebi que era disforia? Quando comecei a me informar que existe. Quando vi que existiam transição (conhecer as
transtimelines foi uma benção) na vida real, sem mágica ou ciência maluca nas histórias em quadrinhos que procurava na internet para realizar o que queria na vida real. Quando me toquei que estava sempre num ciclo menina com força seguida de negação que não lembro como começou e que ia acabar nunca: saí do "é algo parecido, mas não sou eu" e fui pro "é, sou eu".
Notas:
1) Parando pra pensar, tanto falar em disforia quanto falar de mim mesma cai na imprecisão que lido com as palavras, às vezes as manipulo demais ¬¬
2) Tentar organizar os pensamentos é uma armadilha: você ordena os fatos numa narrativa inteligível pro leitor, mas o que você faz é uma composição, não um retrato tão fiel assim. De novo, a questão de falar exagerado ou de falar nada... =/
2b) ...escrever estas notas meio que diminuem os efeitos da armadilha acima :P Mas quebro o ritmo do que quero narrar pra vocês. Ó dilemas de wannabescritora incompetente....
3) Sobre a disforia: queria alguem me dando a certeza, mas acho q me disserem que não sou, vou querer muitas provas ou outro especialista.
4) Citei histórias que procurava para ler. Indico nenhuma, já que boa parte cai em fetixe de submissão =_=
5) Vou encerrando aqui, mas tenho umas bobices pendentes pra falar, vou tentar fazer isso antes do carnaval.