♂ Viagem à Vênus ♀ • Foi sábado agora ^^
Foi sábado agora ^^
Vou dizer que não cultivei muita ansiedade. Quer dizer, fiz uma contagem regressiva dia a dia de quantos faltavam para a consulta, também tinha alguma expectativa do que seria essa conversa - afinal, há relatos aqui e ali, esse é só mais um para a pilha :P - mas foi algo bem contido. Não sei se é a idade, ou simplesmente estou pilotando minha vida em vez de vive-la =p
Na véspera, só não dormi bem porque sinusite atacou e acordei com a mesma dor que deitei. Não recomendo e acho que ainda estou com saldo devedor na cota de sono.
(Namorada disse algo tipo que a sinusite pode ter sido a forma de meu corpo expressar a ansiedade que meu lado consciente nem tomava consciência :P)(mas, vou dizer, as coisas andam tão em banho maria na minha vida, e nessa questão da transição já tive tanto esforço para dar em nada no fim, que devo ter queimado alguns fusíveis na parte que rege as emoções em relação ao que vem)

Tá, talvez eu não estivesse relaxada assim: cheguei no metrô mais próximo do consultório quase UMA hora antes da consulta. Mas, em minha defesa, sempre trabalho com margens grandes, depois ajustando =p E tentei calcular de cabeça o tempo que ia gastar, em vez de, sei lá, dar uma conferida no Google Maps.
E também tive dor de barriga, mas pude resolver isso de forma limpa e civilizada :P. Enrolei alguns minutos a mais na região e fui para o consultório: pequeno, bonito e com uma secretária simpática. O restante do tempo para a consulta passou rapidinho. Queria dizer que na recepção fiquei relembrando cada uma das vezes que me enfiei numa trilha onde deu em nada estes anos todos - de um serviço que me fez ir até lá só para dizer que ia fechar, de buscas de amiga que só me reforçaram a sensação de estar andando em círculos num labirinto (ela bateu em todas as portas que bati, e as que eu não sabia que existiam atendiam apenas adolescentes). Da estudante de psicologia que foi desaconselhada a me acompanhar. Daquele mesmo serviço que disse que fechou reabrir meses depois, mas na véspera de ir para lá, vi uma matéria tão transfóbica na Record com meus pais que travei e nunca mais fui. Do outro serviço que me tratou de forma tão invasiva por telefone (tipo, ligar pra mim, sem me avisar, é invasivo :P). E o outro serviço, que até que achei simpático, mas que também me informaram que eu não era o público-alvo - mas não, rabisquei alguns escritos e só.

Também não lembrei que tinha esquecido de trazer meias de uma casa para a outra, o que talvez fosse mais um sinal da tal a ansiedade subcutânea :P A conversa com a doutora foi legal e além da hora prevista. Ela levantou vários pontos e perguntas, claro que nem de longe vou lembrar tudo para por aqui e nem quero por tudo :P Mas perguntas sobre infância, desde quando me identifico como menina, relacionamentos, desejo de filhos, estrutura familiar, minhas experiências... ela levantou algumas possibilidades sobre minha identidade de gênero (a princípio discordo, mas vou acompanhar a profissional), pediu contato do meu psi para conversar e pedir laudo. Contou causos de outros pacientes, me examinou, perguntou de intenção de cirurgias e lembrou que a forma dela de trabalhar é de eu como um todo, não só focar a transição (ou, como ela disse no primeiro contato "O objetivo da minha consulta não é apenas a TH [terapia hormonial] mas o cuidado da sua saúde como um todo, tanto física como emocional"). Claro que frase bonitinha todo mundo faz, ainda mais para vender o peixe, mas saí muito bem impressionada com ela e com quatro páginas de exames para fazer e trazer no retorno.




Ah, também passei para ela o endereço deste blog (oi, doutora^^) e mostrei muitas fotos de chinchilas, gatos e coelhos :P algumas respostas minhas, algumas que devia ter respondido na hora:
identidade de gênero: não-binária? Nem, não acho que sou. Ela deve ter perguntado isso por eu ainda estar usando o nome de batismo (não bati o martelo) e com roupas masculinas. Mas simplesmente to na inércia da vida de que quero sair, e um tanto insegura, afinal não vivemos os melhores ventos sociais. Eu estar de "menino", na maioria das vezes, me faz sentir como se tivesse com a roupa do avesso. Tá errado, mas não to pelada ao menos.
desde quando me identifico? a ficha caiu fazem alguns anos, esse blog caiu praticamente em seguida ao maior surto de "eu sou". Mas desde a adolescência estou me fantasiando no feminino, geralmente em histórias (esqueci de falar do fanfic de Caverna do Dragão ;P). Afinal, a maioria das minhas protagonistas são mulheres^^
atração por homens? não. Fiz colégio técnico, a proporção era de sete homens por mulher, recebi cantadas de colegas, mas não, nunca me interessei :P
meu corpo me incomoda? Tem coisa que não deveria estar lá =p
Isso, de cirurgia, me parece tão distante e irreal... como a própria possibilidade de eu encontrar uma profissional que me oriente nessa etapa da transição.
Quer dizer, a consulta em si ainda não me caiu a ficha: aconteceu! E assim mesmo, não está palpável. Tenho, materialmente falando, um cartão de visitas e quatro sulfites impressas com cerca de trinta exames para pedir, fora isso ainda é minha vida de sempre, talvez no fundo eu esteja com medo que dê em nada de novo, que surja um impeditivo inesperado, se torne outra trilha que termine numa placa de "faça meia volta, beco sem saída".



(toc-toc-toc, batendo na madeira três vezes).
Nisso de "trinta dias", sincronicidade e transições, os exames coincidiram com as vésperas de minhas férias e a ausência de meus pais por alguns dias. Vou poder marcar exames sem brigar com tempo curto ou levantando perguntas que não estou confortável (quando estarei?) em responder.
Também, aparentemente, estou para me mudar de vez para minha casa com namorada e estou rezando, cruzando os dedos e fazendo campanha para o ambiente do país melhore no mesmo pleito.

E, nesse rolê todo, foi legal chegar em casa e contar tudo o que aconteceu para namorada - que não pode ir, pé torcida. É bom não se sentir sozinha, assim como é bom não se sentir mais jogada no ar como eu estava até os eventos que começaram com a lista de contatos que psicólogo me passou ^^ AimeuDeus, esse texto tá enorme. Espero que as pessoas leiam, porque decidi não escrever a Michiko e os Paralelos hoje ontem - já é madrugada de quarta - para não ficar enrolando aqui para sempre que nem no texto anterior :P
Só quero pontuar mais três coisinhas e dar um link não-relacionado^^ Doutora foi relativamente otimista (ou ao menos simpática :P) com meus traços físicos (sim, tenho neura de rosto, de ombros de....) e com voz (sinceramente, o que li a respeito não me anima, não como resultado de hormônios). Achei legal isso. Por outro lado, ela comentou do emocional, de eu ficar choronassa em breve. A descrição dela foi de "TPM constante". Vixi.
E isso me lembrou de uma história em que ouvi no último serviço que fui (governamental, o psicólogo que conversei era bem boa gente, mas não o que eles oferenciam não era o que eu procurava): uma trans tomou overdose de anticoncepcional para os efeitos virem mais rápido. A pessoa ganhou uma TPM fortíssima de muitos dias (mês?) e chegou perto de um AVC.

E isso também me fez lembrar da segunda coisinha da lista: mais ou menos quando me identifiquei como menina, outra conhecida também o fez, de forma mais escandalosa. Foi a forma dela, não vou julgar, até porque ela tem outras demandas bem próprias que creio estar bem longe de ter. Mas me lembro que ela twittou algo tipo que o ideal é procurar um médico antes de começar a TH, mas que ela trabalhava com a realidade e... berrei por dentro quando li. Nãããããããããããããããããããããããããããããããããããããããããããããããããããããããããããão façam isso. Não tomem remédios sozinhas, sozinhos, sozinhes. Sem discussão, intransitivamente.
É caro, é chato achar profissional legal, mas aos poucos as opções parecem estar aumentando. E as chances de dar ruim crescem sem alguém que entende te acompanhando.
Sim, as coisas podiam ser mais fáceis, podia existir mágica, um serviço público com recursos - como em tudo na saúde - podia ter um monte de coisas que só vão acontecer com muita luta e estudo.
E sim, eu tenho pressa também, também quero "ver a mágica acontecer". Mas a realidade, já que vamos trabalhar com ela, é que as coisas podem dar ruim e saúde é uma só. Morreu, ganhou sequela, não tem tela de "contnue". E assim como ningém fica doente sozinho, ninguém morre sozinho e ninguém é preso sozinho, ninguém se estrepa sozinho: a gente leva as pessoas que mais amam a gente para os rolês ruins que nos enfiamos.

Posso não ter lugar de fala para falar de um monte de coisa, de transição e de ser trans inclusive (afinal, ser "não-praticante" é cômodo), mas tenho mais que lugar de fala em "fazer merda nessa vida". E essa fede bem fedida, sentida de longe. (e sim, eu sei que a desinformação, limitação de acesso e preconceito são desesperadores - e estamos em tempos bravos. Às vezes realmente não há opção. Só que: olhe bem se é isso mesmo, se é hora de quebrar o vidro e as regras, ou se você está apenas reproduzindo uma narrativa alheia como se fosse a sua) Falei das quatro páginas de exames, né? Falei domingo que tivemos visita em casa que divido com namorada e a conversa foi tão legal, e ainda me deram carona para parte do trajeto até a casa de meus pais, que esqueci de pegar as benditas folhas lá? ¬¬
Enfim, elas estão aqui e quero estar amanhã cedinho na porta do laboratório ;P Para encerrar, um mangá de meninO trans. Já traduziram para o inglês quatro dos treze capítulos que saiu numa revista (?) com público alvo masculino jovem. Aparentemente a série não vingou (mangás geralmente duram bem mais que isso :P) e imagino que o autor deve ter dado uma corridinha para fechar a trama dentro do possível. Assim mesmo, está legal e fica minha recomendação. After School Mate


31/08/2022 01:04
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