Diário de Roscharch. 21/10/1985

Acordei às onze com gritos lá fora. Estranho cair no sono sem remover a pele da cabeça. Mais cansado do que supunha. Devo ter cuidado.

Do outro lado da rua, garotos com spray depredavam um prédio abandonado. Memorizei suas feições e me preparei para o trabalho.

Primeiro, tirei meu rosto, dobrei-o e guardei no casaco. Sem a face, ninguém me conhece.

Ninguém sabe quem sou.

Ao sair do quarto, topei com a zeladora. As queixas de sempre: higiene e aluguel. Havia marcas de chupão no pescoço gordo dela. Novas.

Ela me lembra minha mãe.

Na rua, inspeciono o prédio depredado: desenho na porta, homem e mulher, possivelmente em preliminares sexuais.

Não gostei. Faz a porta parecer assombrada.

Na Quarenta com a Sete, Dreiberg e Juspeczyk deixam o Diner. Não me reconheceram.

De caso, talvez? Será que Juspeczyk arquitetou o exílio de Manhattan, abrindo caminho para Dreiberg? Ela também odiava o Comediante. Devo investigar.

Entrei no Diner, pedi cafê e me sentei, olhando para minha caixa de correio do outro lado da rua.

Transeuntes fizeram vários depósitos: papel de bala, jornais, um par de tênis com cadarços amarrados entre si, lingüetas protundidas.

Esta cidade é um animal feroz e complicado. Para entendê-la, leio seus dejetos, seus aromas, o movimento de seus parasitas...

Eu me sentei diante do lixo e Nova York me abriu seu coração. por mushi-san em 21/10/2025 13:00
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