Extraído das anotações do dr. Malcolm Long, 28 de outubro de 1985.

Voltei para casa pela rua 40. Um negro tentou me vender um rolex. Quando continuei andando, ele se pôs a gritar "preto! preto sujo".

Ignorei. Comprei jornal. Russos afirmam que os combates no Paquistão foram um acidente. Nixon diz que os EUA enfrentarão novas agressões soviéticas com "força máxima".

Dentro, artigo sobre procedimentos de alerta nuclear.

Diz que qualquer membro morto de uma família deve ser posto em sacos de lixo e deixado do lado de fora para coleta.

Na Sétima Avenida, os amantes de Hiroshima ainda tentavam inadequadamente se consolar.

Em casa, Glória me lembrou que Randy e Diana viriam esta noite. Irritou-se quando admiti que tinha esquecido. Nós nos vestimos para o jantar em silêncio.

O jantar não foi muito bem.

Diana lembrou que sua babá ia embora mais cedo e eles partiram logo após o jantar.

Glória foi para o quarto. Eu a procurei. Ela saiu de novo para o corredor.

Eu me sentei na cama.

Ela entrou vestindo casaco, submeteu-me a grosseiros insultos sexuais. Saiu. Bateu a porta da frente.

Por que brigar? A vida é tão frágil, um débil vírus que deu certo apegando-se a um grão de suueira, suspenso no nada infindável.

Na semana que vem, eu poderia estar colocando-a num saco de lixo para ser coletada.

Eu me sento.

Olho a mancha de Rorscharch.

Tentei fingir que parecia uma árvore frondosa, com sombras sobre ela, mas não consegui.

A imagem lembrava o gato morto que um dia encontrei, as larvas gordas e cegas que se rastejavam, abrindo túneis freneticamente para longe da luz.

Mas mesmo essa imagem é para evitar o verdadeiro horror.

O horror é este: ao final, tudo não passa de uma imagem de escuridão, vazia e sem sentido.

Estamos sozinhos.

Não existe mais nada. por mushi-san em 28/10/2025 18:00
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