decepcionada e derrubada

Começo do ano, um jornalista conhecido meu me contatou depois de séculos (na verdade, décadas) de silêncio: ele queria fazer uma matéria sobre a descoberta de Réquiem, o roteiro perdido que conta o final de Caverna do Dragão. Em linhas gerais, o texto (que, na época, era lenda urbana mesmo entre os fãs gringos) caiu na mão desse jornalista, que me contatou para saber se era uma informação quente e me fez a segunda pessoa no Brasil a entrar em contato esse roteiro (devem ter tido mais gente antes, mas meu ego finge que essa possibilidade não existe). Isso tudo aconteceu nos primórdios da internet, em 1999, e acabou virando matéria da revista Herói 2000 #3, de outubro daquele ano.

E foi uma das coisas que considero mais legais ter participado na vida!!

Para ele, foi um ponto alto na carreira e se sentia meio culpado por não ter me creditado. Como em 2025 a revista Herói teria uma edição comemorativa de 30 anos, achou que seria a oportunidade de retificar esse erro. Marcamos uma conversa em vídeo, que deu umas duas horas falando sobre o desenho e reconstituindo o que aconteceu na época. No final, fui bem franca com ele sobre minhas questões de gênero.
E só.

Da boca pra fora, não esperava muito: já tive experiência com entrevista e reportagem antes, em que horas de conversa que viram algumas palavras no texto escrito. Inclusive, brincava que quando a Herói saísse, apostava que ia ter um parágrafo ou menos sobre mim.

Quando a campanha de crowdfunding da "Herói 30 Anos" finalmente começou, participei com empolgação, relevei os atrasos e assisti cometerem o erro de enviar as recompensas pelos apoios pelos correios em pacotes sem rastreio....
Paralelo a isso, comprei por excesso de indicações de um colega, um livro espanhol também sobre Caverna do Dragão. Para ser sincera, ele não me interessava, até ver algumas fotos de imagens internas que me fazeram mudar de idéia e fazer o gasto na Amazon de lá. O livro era meio carinho, o frete praticamente dobrou o preço. Seja o que Deus quiser.

E o que aconteceu é que não era de Deus. Não tive tranquilidade: o pacote seguiu da Espanha para a Holanda, atravessou o Atlântico até chegar em Curitiba, onde acabou sendo taxado. Recorri - livro é isento de impostos! - retiraram as taxas e... o pacote sumiu no rastreio. Esperei o prazo dado pelos Correios, abri reclamação, o pacote ressurgiu e de...va...gar veio para São Paulo, com velocidade de lesma anêmica.
Para aumentar meu desespero, vi um livro igual ao meu sendo vendido a mil reais no Mercado Livre (não paguei nem de longe esse preço) e fiquei realmente com medo do meu nunca chegar. Já fazia mais de mês que a jornada tinha começado, com muitas emoções.

(Quem me acompanha no BlueSky viu toda essa novela praticamente ao vivo)

Na terça, namorada avisa que chegou entrega para mim, tem de assinar. Ela foi achando que era o tão ansiosamente esperado livro espanhol, e era a Herói, dentro de um envelope plástico preto.
E eu estava no serviço, dezenas de quilômetros de casa.
Não muito depois, o rastreio dos correios disse que o livro importado saiu de "objeto em transferência" para "objeto saiu para entrega do destinatário". Apavorei um tanto ("AimeuDeus, e se ninguém receber o carteiro e ele voltar com o pacote?") e duas horas depois o status no rastreio era "objeto entrega ao destinatário".
Será que desencantou?
Eu ainda estava no expediente e por coincidência, duas aguardadas publicações sobre o mesmo tema me esperavam em casa.

Começou a chover e a garoar.

Segurando a ansiedade, saí do serviço, peguei monotrilho, fiz baldeação, peguei metrô, subi a avenida, passei na quitanda, passei no açougue, passei no mercado. Ansiosa, cheguei no prédio, peguei os pacotes, subi elevador, saí dele, peguei o envelope preto que namorada deixou na mesa. Tomei banho segurando e café da tarde a ansiedade.

Enfim sentei e para abrir a correspondência. Comecei pelo envelope preto, que me trouxe o gostoso cheiro de papel novo. Folheei até achar as páginas da matéria, comecei a ler

  e tudo se embaralhou

     erraram meu gênero em todas as páginas da matéria. Com um monte de emoções chegando no meu cérebro, li diagonalmente para me livrar logo daquilo, pus a Herói 30 Anos num canto qualquer e decidi ir ver seriado com namorada. Não tinha mais cabeça para mexer em envelope. Tinha tomado um banho de água fria, mais fria que a chuva que peguei enquanto ia para casa.

Da boca pra fora, eu dizia não esperava muito, mas no fundo era um texto que queria mostrar para um monte de gente.
E o livro espanhol? Ele me parecia apagado agora.
Deveria estar contente, mas não estava. Não fiz nada de útil naquela noite, dormi com a decepção e no dia seguinte todo ela atendeu os clientes comigo.

Assim mesmo, mandei mensagem para a conta do instagram da Herói. Não responderam até agora.
Mandei mensagem pro jornalista, ele pediu desculpas, diz que os responsáveis pela matéria ignoraram o que ele falou. E lembrou que não tem o que fazer, a revista já foi impressa, distribuída e não terá um segundo número.
Assim mesmo, antes de deitar, preparei um texto pro insta e postei logo cedo. A idéia era sensibilizar os responsáveis pelo erro, e esperar a fossa passar. Marquei a arroba da Herói. Recebi mail automático da campanha do catarse - relativa às críticas que eles estão recebendo pela demora nas entregas - e respondi com link do textão no insta e minha decepção no BlueSky.
Estou esperando uma reação sentada, de pé cansa.

O engraçado é que o texto todo não tem meu nome de batismo, não tem foto minha e a conversa com o jornalista não deixou margem para dúvidas. Não sei como texto pronto passeou do computador dele para a revista impressa, mas não acho que fui vítima de algum tipo de preconceito. Só que faltou cuidado e carinho para um projeto feito por gente que não começou a fazer revistas ontem, mas há 30 anos ou mais.
Hoje peguei a revista Herói 30 Anos, pus de volta no envelope preto que a trouxe para casa e coloquei no fundo do armário.

Era um texto feito para retificar um erro. Sabe, era um texto que tinha criado a expectativa de mostrar a minha participação nele para muita gente.

Agora é só um texto que quero que suma =( por mushi-san em 18/12/2025 01:11
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