Essa é uma revisão anterior do documento!
Esse é um texto sobre a pergunta que está no título, e eu mesma me fiz. Como ficou grandão, dividi em cinco partes. A primeira está aqui e a segunda aqui^^
“Nem se dêem a fábulas ou a genealogias intermináveis, que mais produzem questões do que edificação de Deus, que consiste na fé; assim o faço agora.”
1 Timóteo 1:4
Voltando à árvore genealógica, fui em um site e fiz uma com todo mundo que encontrei desde Adão até Noé e deste até Abrão, bem depois do Dilúvio. Salvei tudo e fiz dois arquivos em pdf aqui e aqui, mas dá para navegar o original nesse site aqui.
Nessa árvore, além dos nomes, anotei os versículos com as informações que vou trabalhar aqui, mais algumas coisas extras :P
São 100 nominhos (94 homens e 6 mulheres), mais 18 “e gerou filhos e filhas”, mais a listinha de povos descendentes de Canaã, distribuídos em 21 gerações.
SE você for conferir a árvore que fiz com a Bíblia que tem em casa, provavelmente vai ver diferenças. Como falei, o Antigo Testamento de praticamente todas as edições é baseada no texto Massorético e coloquei no gráfico todos nomes que aparecem nela, mais as variações que só ocorrem na versão dos LXX:
• Jafé tem mais um filho, chamado Elisa, citado em 10:2.
• Sem tem mais um filho, Kainan, citado em 10:22.
• Obal, filho de Jactã que aparece em 10:28 não existe nos LXX.
• E há outro Cainã/Kainan que acaba criando uma geração a mais entre Arfaxade e Selá (que são pai e filho no MT, mas vô e neto - com Cainã no meio - nessa versão grega).
Esta geração extra e nomes a mais na versão dos LXX seria apenas uma curiosidade de um texto “mal-traduzido do original” (ou algo assim) se Cainã não fosse citado no Novo Testamento, numa das genealogias de Jesus:
“E Salá de Cainã, e Cainã de Arfaxade, e Arfaxade de Sem, e Sem de Noé, e Noé de Lameque,”
Lucas 3:36
Enfim, se você acredita num texto perfeito e sagrado, constituído apenas pelo “original hebraico” (com alguns pedacinhos em aramaico) do Antigo Testamento e pelo “original grego” do Novo Testamento, vai ter de fazer alguns malabarismos para explicar por que Lucas pôs um nome a mais na ancestralidade de Jesus (de acordo com a “tradução mal-feita” dos Setenta) ou porque o redator de Gênesis (tradicionalmente atribuído a Moisés) esqueceu de uma geração inteira na “versão original”.
Se um está certo, o outro está errado. E se tem erro ou gambiarra, não é perfeito.
Desde que comecei, por hobby (e ainda o é) a fuçar os textos bíblicos, sua formação etc, descobri que não existe um “texto padrão isento de erros” para se firmar, por mais que algumas igrejas tratem cada letra grega/hebraica dos textos como se fossem partes de uma perfeita equação divina. A verdade é que quanto mais você põe a lupa em cada livro, capítulo e versículo, menos sólidas as coisas ficam. Isso do Novo Testamento beber muito da versão grega dos Setenta, com sua versão própria de vários versículos, é apenas um pedaço do rolo todo.
E, vou me repetir, várias vezes ainda: quando você controla o texto divino, de certa forma você controla o que é Deus na cabeça das pessoas.
Daí a branca de alguns com a Bíblia traduzidas de forma diferente, ou de estudos que indicam que há melhores fontes do texto bíblico do que a tradicionalmente usada: elas perdem o controle que tem sobre seu “rebanho”.
E já que separei esse bloco para falar sem freios o que acho (não confiem sempre em mim, ok? Não sou autoridade^^): a Bíblia é um texto sagrado, da mesma forma que um templo é um lugar sagrado e um sacerdote é um líder sagrado: são tudo obras humanas passíveis dos mesmos problemas de suas contrapartes laicas. Doenças e armas matam um sacerdote, má construção ou desastres derrubam um templo, e livros antigos podem ser editados, sofrer erro de cópia e sofrer edições com o tempo. Não imagino Deus preso num texto e não imagino um fiel de verdade que só acredita em Deus se Ele entregar um documento por escrito.
Em lugar algum palavra se limita à texto escrito.
No mais, a Bíblia é inspirada, o que para mim indica que ela vai ser produto de seu tempo e se você procura uma religião em que Deus ditou o livro sagrado, talvez esteja procurando outro livro. (inclusive, preciso ler).
Além do evangelho de Lucas, o de Mateus também brinca de fazer genealogias, mas a partir de Abraão, então não gera material interessante para esse texto. E é curioso que duas cartas de Paulo (na verdade, há dúvidas sobre a autenticidade da autoria paulina em ambas), citadas no começo deste capítulo e do anterior, desrecomendam ficar perdendo tempo com genealogias :P
Uma outra nota menos polêmica: como os nomes que aparecem nos Setenta não tem no Almeidão das massas, estou pegando os nomes da tradução pro inglês que encontrei^^ E acrescento que, no geral, muitos dos nomes apresentam pequenas variações pelos textos, tanto que incluí as que aparecem em Lucas na árvore genealógica :P
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